Por Marcelo Cypriano

“A palavra do SENHOR, que veio a Jeremias, dizendo:
Levanta-te, e desce à casa do oleiro, e lá te farei ouvir as minhas palavras.
E desci à casa do oleiro, e eis que ele estava fazendo a sua obra sobre as rodas,
Como o vaso, que ele fazia de barro, quebrou-se na mão do oleiro, tornou a fazer dele outro vaso, conforme o que pareceu bem aos olhos do oleiro fazer.
Então veio a mim a palavra do SENHOR, dizendo:
Não poderei eu fazer de vós como fez este oleiro, ó casa de Israel? diz o SENHOR. Eis que, como o barro na mão do oleiro, assim sois vós na minha mão, ó casa de Israel.”
Jeremias 18.1-6
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Em um tempo sem a produção industrial em larga escala de recipientes de plástico e vidro, o trabalho do oleiro era de suma importância. O profissional dava forma a uma matéria-prima abundante, o barro, para fazer com ele vasos, garrafas, lâmpadas a óleo, telhas, tijolos e esculturas. Os utensílios eram usados para transporte de líquidos e sólidos, além da armazenagem, feitos com técnicas que se apuraram com o tempo.
“Suscitei a um do norte, e ele há de vir; desde o nascimento do sol invocará o meu nome; e virá sobre os príncipes, como sobre o lodo e, como o oleiro pisa o barro, os pisará.”
Isaías 41:25
A argila era extraída do próprio solo e misturada a certa quantidade de água, para em seguida ser pisada, como evidencia o trecho de Isaías acima. Com os pés dos oleiros e auxiliares, o barro ficava mais compacto, sem bolhas de ar, assim como eram retiradas impurezas como pedregulhos e gravetos.

Após a pisagem, o barro virava uma massa bem plástica, levado a uma bancada para receber mais água, de acordo com a consistência necessária ao tipo de objeto que seria feito com ele. Algumas culturas misturavam à argila um pouco de gesso moído – após queimado, o material ficava refratário, utilizado para cozinhar alimentos.
Diferentes métodos, mesmo fim
Os oleiros primitivos faziam uma longa peça cilíndrica com o barro, como uma mangueira, e depois a enrolavam em espiral para formar um recipiente. Depois, o material era alisado. Posteriormente, cavavam-se buracos no chão no formato desejado, e socava-se o barro neles, pressionando-o contra as bordas, para pegar forma. Em seguida veio o modo mais utilizado até hoje: a roda de oleiro. Uma prancha redonda horizontal recebe o pedaço de barro. Girando-a, o ceramista vai dando forma à argila com as mãos ou uma espátula. A princípio, uma pessoa moldava o barro, enquanto outra girava a roda. Em 200 antes de Cristo (a.C.), foi acrescentada uma segunda roda maior abaixo, ligada à menor com um eixo. O próprio oleiro movimentava a roda inferior com os pés. O método ainda hoje é usado por culturas de tecnologia mais primitiva, ou com o uso de pedais, enquanto outras movem a roda com motores elétricos.
Os objetos fabricados para uso doméstico, profissional ou apenas decorativo, podiam ser feitos para venda nos mercados ou sob encomenda. Tigelas, vasos e até garrafas (o bico fino era feito dessa forma para melhor derramar os líquidos e receber rolhas) faziam parte do cotidiano tanto de famílias bem simples quanto de reis. De acordo com a época, podiam receber decoração em relevo, feita com o barro ainda mole, ou mesmo pinturas.

Além da roda, os oleiros do Antigo e do Novo Testamento já usavam moldes de madeira, nos quais a argila era comprimida.
Mas não bastava pôr o objeto de barro para secar à temperatura ambiente. Ele precisava ir ao forno. Literalmente assado, o minério reage ao calor e torna-se mais coeso, resistente a fogo e água. Um objeto desses, se não for devidamente queimado, pode tanto se dissolver se molhado, ou quebrar facilmente, mesmo com pequenos choques. Até hoje, grandes indústrias que trabalham com cerâmica (louças para banheiros, revestimentos ou mesmo travessas e formas) utilizam fornos mais modernos para temperar (dar mais resistência) o material.
Tradição e modernidade
A despeito das grandes indústrias, a cerâmica artesanal ainda é bastante apreciada, tanto para uso do dia a dia quanto para decoração de interiores e exteriores. No Brasil, além da famosa cerâmica marajoara, produzida pelos índios no Norte, as paneleiras de Goiabeiras, em Vitória, capital do Espírito Santo, produzem as famosas panelas de barro, em que é feita a tradicional moqueca capixaba (foto ao lado). Esculpidos sem o uso da roda, os recipientes recebem uma tintura à base de uma planta dos mangues locais, que dá a característica cor escura e resistência, para depois serem queimados diretamente sobre as brasas de grandes fogueiras. O conhecido empadão goiano também ainda é servido em potes de barro, além da brasileira feijoada nas famosas cumbucas. Quem já provou um prato típico feito em panelas de barro e provou a mesma receita feita em panelas comuns de metal sabe bem a diferença, que evidencia a sabedoria dos artífices dos tempos bíblicos.
Vidas “quebradas” e recuperadas
Além da utilidade prática, observando atentamente o trabalho do oleiro o profeta Jeremias tirou um dos trechos mais conhecidos da Bíblia, o que começa esse texto. Um objeto de barro se estraga ainda na roda, o mesmo pedaço de argila pode ser remoldado, tornando-se novamente algo rico em forma e capaz de guardar um precioso conteúdo. Tal como uma pessoa, que mesmo “quebrada” pelas circunstâncias da vida e por escolhas erradas, torna-se nova criatura pelas mãos de Deus quando se submete realmente a Ele.
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